29ª Bienal de São Paulo
Categoria: Arte, Blog

Duas semanas depois de voltar de São Paulo, sinto falta das anotações que não fiz. Especialmente durante as visitas à 29ª Bienal. A mostra é inimaginavelmente grande e a aventurar-se por ela é extremamente cansativo. Precisei fazer a visita em três tempos.

De maneira geral, um aspecto da curadoria que me incomodou, foi o fato de obras de um mesmo artista estarem separadas ao longo dos 3 andares do pavilhão. Dessa forma, exige-se ainda mais atenção do visitante que, imerso em um caos sensorial, precisa de muita concentração para conseguir estabelecer contato com as obras e relacioná-las entre si.

Não foram muitas as obras que causaram arrepio e que eu trouxe para casa. Entre elas, uma série de fotografias da artista americana Alessandra Sanguinetti (New York, 1968), intitulada Las Aventuras de Guille e Belinda y el Enigmático Significado de sus Sueños. A série foi realizada entre os anos de 1997 e 2008 e mostra a o período entre a infância e a adolescência vivida no interior da Argentina por essas duas meninas – Guille e Belinda. A qualidade das fotografias é excelente, mas o impacto que o trabalho causa, vai muito além das questões técnicas. Talvez sejam os contrastes entre as brincadeiras da infância e a velocidade com que a responsabilidade materna chega batendo à porta da adolescência. Mas também há algo de imobilidade, passividade e conformidade que acompanha a narrativa. Entre os cenários onde as fotos foram feitas, construções simples e um contexto rural configuram o ambiente habitado pelas meninas.

Sunrise (2009, 18′), do artista belga David Claerbout tornou-se irresistível desde o momento em que entrei na sala escura. O vídeo, que é bastante narrativo e “se situa no prolífico território de fronteira onde o cinema e a arte contemporânea se encontram”, preserva o silêncio, a ordem e o controle. Mostra uma mulher chegando à casa onde trabalha como faxineira ainda antes do amanhecer. A casa modernista é quase toda de vidro. À sua volta há uma espécie de piscina, árvores e campo. A decoração da casa é minimalista e em seu interior pode-se ver pouquíssimos objetos. A faxineira cumpre seu trabalho de maneira discreta e automática. A casa não parece ser habitada. Antes de ir embora, quando o dia está quase nascendo, prepara um café e coloca na mesa da cozinha três xícaras, surpreendendo, porque como dito, a casa não parece ser habitada por ninguém. Em dois momentos há uma quebra na expressão robótica da mulher. Enquanto varre a área externa da casa, faz uma pausa e acende um cigarro. Seu olhar se perde na distância do pensamento. No final do vídeo, depois que ela tira o uniforme, monta na sua bicicleta e pega o caminho de volta, o sol surge e ela curte o percurso divisor.

The Ballad of Sexual Dependency, de Nan Goldin, também foi outro trabalho incrível de se ver. Uma projeção de 45′ com fotos da década de 1980, nas quais a artista registrou o que poderíamos chamar de cult underground nova-iorquino. Goldin nega a classificação, dizendo que “não é sobre o underground nova-iorquino nem sobre viciados e prostitutas. É sobre relacionamentos entre homens e mulheres e por que são tão difíceis.” As fotos são cruas, sem nenhum glamour, mas com muita sinceridade por parte da artista, que registra seus amigos em cenas banais e também de intensa emoção. Nesta entrevista dá para ter uma ideia da trajetória da artista, assim como de suas referências.

Também foi muito legal penetrar na obra A Origem do Terceiro Mundo do artista Henrique Oliveira. Tanto pelo título quanto pelas insinuações formais, a obra de Henrique lembra uma pintura de 1866 de Gustave Courbet, A Origem do Mundo. No ano passado, o artista também participou da Bienal do Mercosul fazendo uma intervenção com madeira e pvc em um sobrado abandonado da Rua dos Andradas. A obra Tapumes – Casa dos Leões levantou bastante polêmica com relação à arte em espaços públicos na capital gaúcha. O que mais chama minha atenção na obra do artista é o contraste entre a simplicidade do material utilizado – madeira de baixa qualidade geralmente utilizada na construção de tapumes – e a complexidade do resultado obtido em suas instalações, que apresentam formas orgânicas de grandes dimensões.

E para fechar, impossível não se deixar envolver pelo impacto da obra de Gil Vicente, responsável por uma das polêmicas da Bienal deste ano. O tamanho dos desenhos evidencia o envolvimento físico do corpo do artista sobre sua obra, dando mais força ao trabalho. Outra característica determinante para o sucesso da série de desenhos diz respeito à escolha do artista em assumir sua posição em todos os sentidos e dimensões. Ele ocupa a posição daquele que cria – plano das ideias -, mas também é sujeito ativo dentro de sua própria criação. Desta maneira, Gil Vicente se responsabiliza duplamente pelos assassinatos e é essa convicção e coragem que fazem deste um grande trabalho.

Deixe um comentário