O Natimorto
Categoria: Blog, Leituras

Ela solta uma arfada
de ar.
Parece sufocar-se
em minha presença.
Depois
vai
almoçar.
Eu espero.
Espero
que ela perceba
que mesmo quando saímos,
não vamos,
a parte alguma.
Estamos sempre
no mesmo lugar.
Permaneço.
Presente.
O presente,
tudo o que nos resta.
Somos como o menino
que constrói castelos
de areia.
Aguardamos
a materialização
para podermos destruir
tudo o que construímos
à nossa volta.
Essa é nossa natureza:
somos destruidores.

Quanto mais eu me protejo,
mais eu me firo.
Quanto maior a doçura,
Mais forte é o enjoo.

A Voz – Você é sensível demais.
O Agente – Sensível demais… Isso não parece bom.
A Voz – Isso não é bom. Não é bom para você e não é bom para quem está próximo de você.

Reencontro
os padrões
que haviam sumido
pelo costume.

[MUTARELLI, Lourenço. O Natimorto. São Paulo: Companhia das Letras, 2009.]

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