Passageiro do fim do dia
Categoria: Leituras

Uma rede de pensamentos durante uma longa viagem de ônibus – diária para muitos, semanal para Pedro. Cruzar fronteiras. Não só geográficas, mas também aquelas que existem entre os assuntos e as memórias que se intercalam; entre as diferenças sociais que se estabelecem e se chocam nos encontros. Ter consciência, observar, perceber. Seguir. Primeiro livro do ano. Sensível como o olhar que enxerga o Outro. Rico como as janelas de um ônibus que cruza a cidade.

“A demora do ônibus, o bafo de urina e de lixo, a calçada feita de buracos e poças, o asfalto ardente com borrões azuis de óleo, quase a ponto de fumegar – Pedro já estava até habituado. Não são os mimados, mas sim os adaptados que vão sobreviver.”

“Pedro olhou bem para o cachorro, acomodado sobre as patas traseiras num assento estofado em couro preto. Pedro também gostava de sentir o vento na cara, também seria capaz de acreditar, nessas horas, que a janela, toda e qualquer janela, de um ônibus, de um carro ou de uma casa, não tinha outra finalidade senão deixar o vento bater na cara da gente.”

“Ficou bem claro para Pedro, nessa passagem, como até o passeio, até o lazer do cientista supunha seu trabalho ininterrupto: o mundo tinha de se dobrar, tinha de tomar a forma da sua atenção. E quanto mais atenção, mais mundo existia para ele: mais mundo pertencia a ele.”

“Uma doida, um bicho, disse Rosane para Pedro em voz baixa – com vergonha, com susto de estar dizendo aquilo: um bicho. Mas foi o que alguém no escritório falou, na hora, e foi o que Rosane pensou e, com medo, atenta, para testar repetiu a palavra na cabeça. Como sua amiga tinha ficado assim? E como Rosane pôde pensar aquilo? Ela acusava com amargura a amiga de infância, acusava as pessoas que eram como ela – não eram raras, não eram exceção -, sem procurar desculpas nem atenuantes.”

[FIGUEIREDO, Rubens. Passageiro do fim do dia. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.]

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