A insustentável leveza do ser
Categoria: Blog, Leituras

“O drama de uma vida pode ser explicado pela metáfora do peso. Dizemos que temos um fardo sobre os ombros. Carregamos esse fardo, que suportamos ou não. Lutamos com ele, perdemos ou ganhamos. O que precisamente aconteceu com Sabina? Nada. Deixara um homem porque quis deixá-lo. Ele a perseguira depois disso? Quis vingar-se? Não. Seu drama não era de peso, mas de leveza. O que se abatera sobre ela não era um fardo, mas a insustentável leveza do ser.”

“Muitas vezes nos refugiamos no futuro para escapar do sofrimento. Imaginamos uma linha na pista do tempo, e pensamos que a partir dessa linha o sofrimento presente deixará de existir.”

“Fazia coisas às quais não atribuía nenhuma importância, e isso era bom. Compreendia a felicidade das pessoas (das quais até então sentira pena) que exercem uma atividade às quais não foram levadas por ume “es muss sein!” interior e que podem esquecê-la quando vão para casa. Jamais conhecera essa feliz indiferença. (…) O “es muss sein!” de seu trabalho era como um vampiro que lhe sugava o sangue.”

“A jovem falava da tempestade com o rosto banhado por um sorriso sonhador e ele a olhava estupefato, quase envergonhado: ela vivera uma coisa bela e ele não a vivera com ela. A reação dicotômica da memória dos dois diante da tempestade exprimia toda a diferença que pode haver entre o amor e o não-amor. (…) Parece que existe no cérebro uma zona específica, que poderíamos chamar memória poética, que registra o que nos encantou, o que nos comoveu, o que dá beleza à nossa vida.”

[KUNDERA, Milan. A insustentável leveza do ser. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1985.]

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