Desilusão
Categoria: Educação

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Estava sentando em cima de um degrau, entre duas colunas, encostado em uma das vitrines que anunciam os filmes em exibição na semana. Da porta principal só era possível enxergar um pedaço da calça azul, os joelhos dobrados. Foi um colega que, ao chegar, anunciou de quem se tratava. O assunto de todas as semanas, a nossa grande preocupação. Nem dez minutos antes eu recebera notícias otimistas de uma suposta internação e acompanhamento que duraria um mês. Um mês a salvo, pensamos todos. Dos sofrimentos, o menor, desejamos todos. Mas que nada! Foi só descer as escadas e lá estava ele, recostado nas paredes da Casa, que talvez de fato represente a Casa mais verdadeira que já teve até hoje. Casa que acolhe, que protege, que esquenta, que dá carinho. Reunidos em três, procuramos não olhar muito, para evitar as mesmas situações de constrangimento ocorridas na semana anterior. Mas ele não se conteve. Virou o rosto e espiou com um olho só, como quem espia o inimigo, sem querer ser visto. Papéis invertidos, o negativo, do inimigo escapou um olho, um olhar, que a gente sabe que sempre que está por lá é para chamar a atenção. Nem cinco minutos se levantou. O corpo esguio, as calças justas nas pernas compridas, a camisa branca, suja como o rosto, os pés, o cabelo, presa dentro do elástico . Veio caminhando em nossa direção, cambaleando, a garrafinha na mão. Hoje eu não posso fazer oficina – foi a frase que disse calmamente. E por que não? - perguntei. Porque hoje eu tô com loló – respondeu, inclinando o rosto e entristecendo o olhar. Que bom isso, não? – provoquei. As palavras se atropelaram, quando quis perguntar quando que ia ter de novo. Na sexta, tu sabe que é na sexta-feira. Nisso chegaram as outras crianças, nisso eu engasguei, nisso eu quis chorar todas as injustiças do mundo. Mas as outras crianças tinham acabado de chegar, alegres e dispostas a fazer a oficina, cumprindo todas as regras estabelecidas, assim, merecendo a maior e melhor das atenções. O grupo recém chegado se reuniu em nossa volta, ele virou de costas, triste, devagar, acompanhado da garrafinha e, passo a passo, foi se distanciando. Um fim-de-semana inteiro pela frente para ele se matar. O que impressiona, como sempre, é o bom senso apresentado. Antes não tomava vinho, porque era uma criança – encantadora, por sinal, que conseguiu cativar todo mundo; agora não faz oficina, porque naquela tarde sabe que fez a escolha errada.

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