T-10
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Peguei o T-10 um pouco depois do meio-dia, no fim da linha do Vale. O cobrador, que era o mesmo da ida, estava em chamas no celular discutindo a relação – Tá, mas se tu acha que vai ser melhor assim.Me escuta. Com apenas uma mão livre, anotava o número das carteirinhas e dava o troco. Então foi que ele simplesmente largou o aparelho dentro da gavetinha, mudo, interrrompido. A pessoa desligou o telefone na cara dele. Muito constrangedor, porque tudo, tudinho, estava explícito na sua expressão. No meio da viagem foi retomada a conversa. Uma mão segurava o telefone e a outra tapava a boca, tentando abafar a voz. Pelo menos ele teve o bom senso de tentar evitar que todos os passageiros ouvissem suas palavras. Fiquei imaginando onde deveria estar a provável mulher que travava aquele diálogo angustiante com o pobre homem. Na cozinha de casa, se matando de tanto chorar, sem conseguir colocar uma garfada de comida na boca? Seria ela uma telefonista matando se aproveitando da hora de trabalho? Ou será que também era uma cobradora de ônibus, trabalhando em alguma outra linha?

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