Filhos do rio
Categoria: Cidade

Eu seguia pela Rua da Praia e os dois, lado a lado, à minha frente. Ele andava inclinado para a esquerda. As calças pretas, compridas demais, estavam presas abaixo dos tênis. A camisa de manga curta era da mesma cor. Ela estava à direita, chinelo de dedo, shortinho de lycra e um top. Mochila pendurada no ombro esquerdo. Apesar da magreza, suas pernas eram feias. Descabelada, andava esbelta. Chegando quase no final da Praça da Alfândega ela deu um puxão numa nota de cinco reais que estava na mão de um homem loiro que, de costas para a Praça, conversava com um moreno. O homem, que segurava a nota com força, virou. Era cego. Ela não conseguiu tirar o dinheiro dele, mas parou do seu lado para esperar que o moreno, provável comprador de Mega Sena, fosse embora, e daí sim conquistar a quantia que o outro possuía. O moreno soltou qualquer xingamento e ela seguiu andando. Nisso eu já os havia ultrapassado. O rosto da moça era deformado de tanta cicatriz e marca de machucado. Imaginei-os saindo de dentro do rio, o que seria totalmente plausível. Tentei imaginar há quanto tempo devem estar nessa situação, pois assim de longe não se percebia qualquer característca sociável, o que deve dificultar qualquer contato e abordagem. Quando será que cortaram o umbigo de convenções que os liga à sociedade? E como deviam ser quando crianças? E como foi quando nasceram? Onde será que tem alguém familiar? Quais serão suas lembranças?

Então eu me pergunto como é que permitem que esse tipo de coisa aconteça. Os exemplos não se esgotam. Basta andar trinta minutos na rua, no centro ou nas avenidas principais, que casos de barbárie não faltam. Só vemos as coisas piorarem, em número e grau. Até que ponto será que um homem pode agüentar? Até quando esse abandono e descaso vai continuar?

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