Sobre distâncias e diferencas
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Minha amiga Fada Funkeira foi minguando. Em um ano ela foi desaparecendo nao só dos nossos encontros, mas também de sua própria existência. O nome para o que aconteceu poderia ser um só: crack. Mas tentar explicar uma situacao que é complexa demais colocando a culpa na ponta, na pedra que queima, é quase tao grave como negar o problema, ou negar uma realidade.

Uma associacao de idéias fez com que eu, aqui longe, pensasse nela. Meu funk era o da Jackie Tequila de 1994. Nesses quinze anos, entrar na adolescência, ser adolescente, deixar a adolescência e, por fim, fazer escolhas e agir de acordo com aquilo que se acredita. Nesse mesmo período de desenvolvimento pessoal, um anti-desenvolvimento social foi enchendo as sinaleiras e depois as ruas de criancas e adolescentes abandonados por uma mae chamada sociedade. E foi fazendo com que a cidade se cercasse por estar cada vez mais ameacada por uma vilã chamada violência.

É curioso perceber como a distância relativiza as relacaoes entre as pessoas e pode aumentar ou diminuir as diferencas que existe entre elas. Estar em outro país e encontrar alguém da mesma origem, teoricamente, já é motivo suficiente para ser amigo, freqüentar a casa e fazer programas em parceiria. Ser estrangeiro é ser a representacao do próprio país para os outros. Mas como representar um país inteiro?

Como é ser brasileiro no Brasil? Como é ser brasileiro no exteiror? Existe coerência? Ou será que quem no Brasil nunca pegou um ônibus lotado no final da tarde, nunca vai no centro da cidade, porque além de ser perigoso, é sujo e tem muita gente feia, pode tentar gingar na malandragem da periferia quando está fora? Quando se está longe, é mais fácil reconhecer e, até mesmo se identificar com uma realidade que se prefere ignorar. Valores sao universais, implicam em coerência.

Um comentário

  1. ricardo disse:

    belo texto, Júlia. difícil encontrar respostas, infelizmente. outro dia levei um susto quando vi uns três guris limpando vidro de carros numa sinaleira de Frankfurt, de tão incomum que é esse tipo de situação por aqui. deve ter sido uma sensação parecida com a de um estrangeiro que vê isso no Brasil pela primeira vez.

    ser brasileiro na Alemanha é ficar ansioso porque os pedestres esperam a vez de atravessar a rua e os carros, já com o sinal aberto, aguardam alguns segundos antes de acelerar, só por precaução. eu, pelo menos, fico ansioso, e me dou conta do quanto a gente está acostumado com o caos, especialmente no trânsito. motos e carros que não podem parar por um segundo, pedestres que “custuram” entre os carros, faixas de segurança que perdem a utilidade, etc. sem falar que é possível atropelar um ciclista, por exemplo, ser considerado culpado, e mesmo assim não ir preso – perde-se a carteira por um ano, paga-se uma indenização qualquer para a família e era isso. esse é o valor de uma vida no Brasil.

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