Making Worlds
Categoria: Arte, Viagem

Ouvi dizer que estava acontecendo uma tal de Bienal de Veneza e fui conferir…

Nao posso negar a emocao de visitar um dos maiores e mais importantes eventos de artes visuais do mundo e nem a de colocar os meus pesinhos em uma cidade tao pitoresca quanto Veneza.

Aviso de antemao que quem chegar lá com a expectativa de todos os clichês romântico-turísticos corre grande perigo de se decepcionar. Com seus prédios antigos em péssimo estado, a cidade pode ser confundida com um grande cortiço. O passeio de gôndola? Esquece! Além de ser caro, rola engarrafamento nos canais e os gondoleiros ficam gritando e tirando sarro entre si. Sem falar na massa de turistas e de pombas que lotam os destinos mais confirmados pelos guias de viagem. Pior ainda quando eles se juntam para posar pra foto.

Mas quem chegar lá de coracao e olhos abertos e se permitir ter um olhar livre, vai se encantar com as cores, a luz e as peculiaridades de Veneza. O fato da cidade nao ser restaurada, faz com ela se mantenha autêntica e nao seja confundida com um cenário qualquer. A água dos canais é azul-esverdeada e nos quatro dias em que fiquei lá, havia muito sol e o céu era de azul intenso. Entre os prédios há muitos varais, que reforçam a idéia de cortiço, mas que colorem ainda mais a cidade. No final da tarde até quase nove horas da noite a luz dourada e os reflexos da água realçam as cores dos prédios.

Mesmo sabendo que nao tem como nao se perder em Veneza, comprei um mapa. Me perdi muito e o mapa nao ajudou em nada. Desisti de me encontrar e apenas caminhei deixando o acaso guiar meu primeiro dia na cidade. Como nao há ruas, apenas becos e ruelas, nao há carros. Tudo que se faria com um carro, um ônibus ou um caminhao é feito com barco. Transporte coletivo, taxi, ambulância, viatura de polícia, lixeiro, transporte de mercadorias. As casas nao têm pátios. A água bate direto em suas paredes e os barcos particulares ficam estacionados nos fundos. Como será que é ser crianca em Veneza? Difícil jogar bola e andar de bicicleta.

O segundo dia foi dedicado ao Giardini, que é um parque onde tem uma mostra principal em um prédio grande e, em prédios menores, ficam os trabalhos dos artistas representantes de cada um dos países participantes da Bienal. Ir de um prédio a outro implica em caminhar pelo parque, o que é uma boa estratégia de pausa entre uma exposicao e outra. Esses prédios menores ficam espalhados pelo parque e cada um deles tem características bem próprias. Interessante perceber como o espaco expositivo influencia quando o trabalho é feito especialmente para determinado fim. Prédios mais neutros, com paredes e salas definidas, abrigavam obras mais “tradicioanais” e “independentes”, mas prédios com um estilo mais ousado, como o dos países nórdicos, que era todo de vidro e tinha três árovores no meio do salao, acabam provocando um diálogo maior entre o espaco e a obra.

Do que vi no Giardini, o que mais gostei foram dois trabalhos da artista que estava representando a Holanda, Fiona Tan. Acho que pela primeira vez na vida sentei e quis assistir um vídeo-arte até o fim. Eu só conseguia pensar “é isso, é isso”, porque sempre tive muita bronca com os vídeos que sao longos e que, mesmo que subjetivamente, nao dizem, nao fazem sentir e nem pensar nada. Era um trabalho bem feminino, projetado em duas telas verticais, uma ao lado da outra. Imagens de duas mulheres, uma mais velha (uns 60) e outra mais nova (uns 30), pensando e lembrando de algumas situacoes. O som era ambiente, na maior parte rolava um silêncio. Nao vou prosseguir com a descricao, porque nao fará muito sentido, mas o trabalho era realmente muito bonito.

O outro trabalho estava exposto em uma sala menor. Eram seis telas de LCD verticais com vídeos em preto e branco de pessoas posando para uma foto. Uma foto dura um milésimo de segundo e no vídeo esse tempo foi esticado por minutos e o ângulo da câmera ia sendo aumentado, contextualizando essas pessoas dentro do espaco onde se encontravam. Dos seis, gostei mais de dois (impossível fugir dos juízos de valor): um menino de uns três anos, de pijama – a câmera ia ampliando o campo de visao e iam aparecendo os brinquedos que ele havia espalhado pela sala da casa. Ele todo concentrado, mexendo apenas as maosinhas, olhando pra câmera. O outro era de um pai e um filho que têm / trabalham em um armazém. O pai atrás, o filho na frente, pose rígida. O filho desviando o olhar, o pai olhando sério pra câmera. Tudo em silêncio. Esse prolongamento do tempo e abertura do campo de visao acabam entregando o retratado, mas ainda assim resta muita subjetividade. Um trabalho de extrema sensibilidade.

Rápida e indireta comunicacao por canais incertos da rede.

No domingo, meu terceiro dia em Veneza, tive uma doce surpresa! Esperei quarenta minutos na frente do Arsenale, o outro local da Bienal e nosso ponto de encontro. Comi uma maca. Procurei um orelhao, depositei nele todas as moedas que carregava na bolsa e ouvi uma mensagem em italiano, compreensível mesmo para quem nao fala o idioma: a ligacao nao pôde ser completada. Retornei ao ponto de encontro, fui ao banheiro, voltei. Chegou uma harpista. Esperei ela se preparar e comecar a tocar. Depois de uma hora e quarenta minutos desisti e entrei no pavilhao. Na primeira e grande sala estava um trabalho lindo da Lygia Pape. Deu um orgulho. Pensei nos 36 alemaes que participavam da mesma excursao que eu e que mal falavam comigo e sorri de cantinho. Depois de trinta minutos meu telefone tocou. Corri pra frente do Arsenale. [E o tempo parou por 24 horas] Encontrei minha querida amiga Gabi que eu nao via há mais de dois anos acompanhada de seu bem humorado namorado. Veneza nao teria sido a mesma sem essa companhia tao especial. Depois de 24 horas exatas nos despedimos na frente do mesmo Arsenale e voltei à Lygia Pape.

No Arsenale, meu maior objetivo era encontrar o trabalho da Miranda July. Distante das expectativas que criara, fiquei sentanda entre os trabalhos e embaixo do sol durante muito tempo pensando em alguma solucao para o problema. Eu nao poderia simplesmente ignorar Miranda July. Tentei reagir.

Voltei para Dresden sem ter dado conta de ver toda a Bienal e nem metade dos eventos paralelos que estavam acontecendo na cidade. Primeiro sentimento-conclusao: “arte” é um nome tao curto para uma coisa tao grande e abrangente, que pode ser tantas coisas tao diferentes e tao contraditórias ao mesmo tempo. Segunda: estava achando que a Bienal de Veneza seria o evento mundo-arte mais profissional que eu veria na vida, mas apesar dos mais de cem anos de tradicao, encontrei muito amadorismo. Preciso dizer que achei isso bom! Nada de frescura. Nesse Arsenale, por exemplo, que é uma fábrica velha desativada, rolaram vários trabalhos no pátio e também em pequenas casinhas abandonadas no meio do mato. Rolava um medinho de entrar, porque nesse mato tinha uns lagartos (tá bom, uns lagartinhos, mas mesmo assim…) que acabaram invadindo algumas partes da exposicao. Dava só pra ouvir o barulho deles caminhando… arrepio na espinha! Enfim, a viagem a Veneza foi a coisa mais legal que aconteceu nesses quatro meses europeus.

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