Eu apoio a Cigarra
Categoria: Arte, Educação

A cigarra e a formiga, Gustave Doré

A cigarra e a formiga, Gustave Doré

Eu estava descendo a rua e na minha frente caminhavam um casal de avós e sua neta, que devia ter uns quatro anos. A menina perguntou aos avós se eles sabiam que a Cigarra não gostava de trabalhar. Com ar de surpresa, a avó repetiu a pergunta da neta. O avô, sorrindo contente por conhecer a história a qual ela se referia, tentou ir adiante perguntando sobre a Formiga e dizendo que a danada da Cigarra só queria saber de cantar. Meus passos apressados ultrapassaram o trio. Não ouvi o desenrolar da conversa, mas não é difícil imaginar como foi.

Segui pensando no que havia acabado de ouvir. Por que o trabalho da Cigarra não poderia ser cantar? Uma vez ouvi a história da Chapeuzinho Vermelho do ponto de vista do Lobo, que dizem por aí que era Mau. Talvez já esteja na hora de revisarmos esta história e contarmos que a Cigarra, na verdade, trabalhou o verão inteiro, tanto quanto a Formiga, e mesmo assim não recebeu nada em troca. Desta forma seria mais fácil compreender as dificuldades que quem opta por uma profissão economicamente não valorizada enfrenta.

Preconceitos como este encontrado na fábula de Esopo e valores conservadores presentes na sociedade em que vivemos, só contribuem para reforçar a desvalorização destes profissionais que optaram por não seguir o caminho seguro do socialmente aceito. Tenho convivido com esta angústia há bastante tempo e cada vez que reencontro um ex-colega do Instituto de Artes a conversa gira em torno da resistência e desistência. Ao concluir o curso, somos obrigados a estourar uma espécie de bolha e encarar a realidade, passando a questionar nossas escolhas e a ponderar suas consequências. Seria possível viver em mundo sem arte?

Essa aflição pode ter sido uma das responsáveis pela aproximação estreita entre os conceitos de arte e vida, presente na obra de diferentes artistas ao longo da história da arte. A ideia, que amplia a arte para o campo da vida, faz com que as duas se tornem uma coisa só. Beuys, Hundertwasser, Paulo Bruscky, Nan Goldin e Miranda July, são alguns exemplos.

2 comentários

  1. debora disse:

    julia, que delicia te ler assim bastante de novo! :)
    um beijo

  2. julia disse:

    Débora, que bom saber que o blog está sendo lido. Melhor ainda saber que estás assim, por perto!

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